Uma réplica contra a desinformação: potência não é nada sem controle!

Amigos,
Preocupou-me uma série de mensagens sem fundamento compartilhadas por um radioamador reincidente que há anos atua contra bons projetos que tentam promover o uso correto do rádio entre montanhistas. Sua última manifestação me obrigou a intervir.
Um rádio apresentará instabilidade e ainda será a melhor opção para quem precisa se comunicar por voz onde não há sinal de celular e a telefonia via satélite tem preço proibitivo.
Vamos logo ao que interessa...
Sobre as mensagens
O colega diz que uma pequena mata é suficiente para jogar por terra a comunicação desses "radinhos" [sic] de 0,5 W e que nem artilharia pesada (80 W!) lhe permitiu chegar à brigada de incêndio a 4 km de distância. É bom lembrar que a quase totalidade dos rádios móveis tem potência máxima de 50 W e se 80 W não resolveram, o operador deveria repensar a estratégia. A frustração com "radinhos" é outro indício de sua inabilidade. Está investindo em força bruta, quando deveria usar a cabeça.
Eu explico.
A diferença entre 50 W e 80 W é um ganho de, apenas, 2 dB para transmissão. A recepção não é afetada. O sinal ficará ligeiramente mais limpo para quem lhe escuta, mas você não escutará melhor. O problema de comunicação permanece. Por outro lado, uma antena com 3 dB a mais de ganho dobra a potência irradiada. É uma solução mais eficiente e barata do que acrescentar 30 W elétricos ao rádio, com benefícios para ambos os sentidos.
Todavia, se na Radiocomunicação de Uso Geral — onde estão alocados os tais "radinhos" de 0,5 W — não é permitida a troca da antena, então nos sobra procurar por um local melhor para transmitir e isso costuma funcionar muito bem. O colega se queixa de que 10 metros para o lado deixou o rádio surdo, mas o contrário também é verdade, funcionou na direção oposta. Que bom! De um rádio móvel ou portátil se espera mobilidade. Ficar plantado esperando um sinal divino não levará a sua mensagem adiante.
O sujeito insiste na questão da potência (e lá vamos nós): "em ambientes de montanha e mata, muitas vezes, até rádio com 5 ou 10 W de potência são ineficientes".
Por acaso ele está sugerindo que o rádio de guias e monitores tem pouca ou nenhuma utilidade? E continua:
"Se o sinal de celular, com suas potentes repetidoras, não chega em todo lugar, que dirá dos radinhos com 0,5 W de potência..."
Misturou-se alhos com bugalhos. A potência do rádio é parte da equação, mas quando vira fixação, a gente já sabe: é erro de principiante ou teimosia. O nosso radioamador faltou às aulas de teoria e técnica operacional, além de não saber como funciona a rede de celular.
A ERB (Estação Rádio Base), chamada popularmente de "antena de celular", não é repetidora e seu raio de cobertura é definido pela legislação. Essa antena está apontada para os interesses comerciais da empresa provedora. Não haverá sinal onde não há usuário pagante que justifique a instalação de uma torre. Entram, em cena, as vantagens da radiocomunicação livre, gratuita e descentralizada.
Real vs. Ideal
Quando procuramos uma alternativa ao celular, estamos reconhecendo os limites desse aparelho. Todo dispositivo é limitado pelo contexto em que está inserido. Entre o celular e nada, o rádio de uso geral fará a diferença desde que usado corretamente (o que não é difícil, nem complexo).
A afirmação de que uma pequena mata torna o seu rádio de 0,5 W inútil é genérica e preguiçosa sem uma análise minuciosa. De que "mata pequena" estamos falando? É composta por gramíneas ou árvores? Qual a sua localização? Se é pequena, o operador poderia atravessá-la facilmente em busca de melhor posição para transmitir? É ignorância ou má-fé.
Sim, dada a situação, é normal o rádio apresentar instabilidade, mas há pouca ou nenhuma dúvida de que o desfecho teria sido diferente para Roberto no Pico Paraná se ele tivesse o aparelho em mãos. Até uma aeronave poderia ser usada para tentar contato com o rapaz, embora a região já tenha um perfil de elevação favorável para esse objetivo em solo, conforme mostram os vídeos compartilhados pelos voluntários nas redes sociais.
O Corpo de Bombeiros poderia incorporar o rádio livre em suas missões para, legalmente, buscar e socorrer o visitante em situação de emergência. Por outro lado, abordar o tema de maneira tão equivocada, negativa e estéril, desencorajando o uso de um recurso que pode salvar vidas, é um desserviço.
Por questões financeiras, a maioria da população terá o rádio como única opção. Todos os anos o nosso projeto atende centenas de pessoas e estamos expandindo. É conhecimento que se traduz em segurança e responsabilidade. Mudamos o mundo com iniciativa e boas ideias. Só reclamar não ajuda.
Legislação, Ética e Técnica Operacional
O indivíduo deve estar ciente e preparado para se meter em terreno hostil. De nada servirá um kit de primeiros socorros se você não souber usá-lo. A lógica se aplica a tudo levado na mochila. Isso posto, é necessário saber operar um rádio minimamente e um bom começo é acessar o aplicativo Manual do Rádio ou o livreto Manual do Serviço de Radiocomunicação. A leitura cobre a parte teórica, mas não a prática.
Leve sempre o rádio consigo e faça testes. Quando possível, promova, com os seus amigos ou as equipes de que faz parte, simulados em locais controlados.
Diferente do uso do seu celular no centro da cidade, o rádio apresentará falhas e isso é normal. Ao transmitir, sempre observe a vegetação, a altitude e os acidentes geográficos entre A e B para tornar a prática cada vez mais intuitiva.
Assim, encerro e espero ter esclarecido.
Qualquer dúvida, entre em contato!
Um abraço!
Marcio Grassi Salvatti
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Imagens ilustrativas: Gemini 3 Pro
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Informação
Ótima explicação. Sou piloto militar (aposentado) de asa rotativa e se o "perdido" estiver com um "radinho" no canal 9 (emergência) e minha equipe a bordo também, posso não vê-lo lá de cima no meio da mata, mas posso escutá-lo quando voar acima dele. Sempre gostei de voar, mas "caminhar" é o meu passatempo e levo comigo um SPOT pendurado do lado de fora da mochila (e Rádio simples, dentro dela).
ResponderExcluirBoa tarde, Aragão. A sua experiência como piloto não deixa dúvidas sobre a conveniência da radiocomunicação. O Protocolo de Áreas Remotas, presente no aplicativo Manual do Rádio, resolve a questão da sintonia. Forte abraço!
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