Videoconferência: Radiocomunicação e Montanha

Amigos,
Dia 26 de dezembro de 2025, aconteceu a primeira reunião do nosso grupo Radioamadorismo Aventura, parte integrante da comunidade Radioamadorismo Brasil. O encontro estava previsto para o início de 2026, mas o adiantamos para tratar de três informações equivocadas e perigosas que persistem e estão sendo propagadas em um grupo influente de montanhismo.
Esta publicação não reproduz a reunião na íntegra, mas destaca os pontos principais. Confira!
Mitos x Realidade
O primeiro equívoco é uma falácia antiga e reproduzida desde a chegada da internet. Em sua nova versão, ela afirma que a solução comercial via satélite tornará a radiocomunicação convencional obsoleta. O erro está em equiparar topologias de rede diferentes.
O segundo erro está em criticar o Brasil por adotar canalização própria para a radiocomunicação de uso geral, mas assim também fez os EUA, o Japão, a Austrália e muitos outros países signatários da União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU destinada a padronizar e regular as ondas de rádio. É preciso entender que as frequências são alocadas conforme as recomendações da entidade, mas também tendo em vista a soberania de cada Estado-Membro.
O último equívoco parte do princípio de que a comunidade de montanhismo deveria aguardar o aval das Forças Armadas para colocar em prática a comunicação de emergência entre praticantes de atividades ao ar livre, mas quem administra o espectro de radiofrequência é a Anatel, Agência Nacional de Telecomunicações, que já disponibiliza recurso para essa finalidade. Com o amparo do Ato nº 14448, de 04 de dezembro de 2017, voluntários ao longo dos últimos anos participaram de inúmeras discussões para a criação de um protocolo de segurança que pode e deve ter adesão posterior da segurança pública. Assim também nasceu o Wilderness VHF FM Protocol, proposto em 1994 por um montanhista e radioamador norte-americano.
Resumo do conteúdo da reunião
Foram apresentadas as canalizações de uso geral pelo mundo (EUA, União Europeia, Austrália, Japão e China), as incompatibilidades entre elas e o rigor quando o assunto é transmissão em radiofrequência. O Ministério de Assuntos Internos e Comunicações do Japão, por exemplo, proíbe a utilização de modelos de rádios estrangeiros em território nacional (ver abaixo). A "burocracia" não é exclusividade nossa.
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| https://www.soumu.go.jp/soutsu/hokkaido/eng.htm |
No Brasil, a Anatel é a responsável pela administração dos recursos hoje disponíveis para uso imediato em atividades ao ar livre.
Tratou-se também de topologia, ou seja, das diferenças entre rede descentralizada (livre) e centralizada (paga, comercial). Embora concorrentes em cenários muito específicos, onde um ou outro será mais útil, são complementares na maioria esmagadora dos casos. O fato de existir comunicação satelital não exclui a necessidade de portar rádio convencional.
Já o caso da Juliana Marins, vítima no Monte Rinjani, foi abordado para nos alertar da falta de comunicação antes, durante e depois — condição que certamente contribuiu, em algum grau, para o trágico desfecho. Destaque para o equipamento do alpinista Agam Rinjani, o homem que resgatou a brasileira já sem vida. Seu moderníssimo MOTOTRBO XiR P8668i, lançado em 2016, foi tema até de influenciador indonésio (veja abaixo). A radiocomunicação tem o que há de mais avançado.
A escolha da Frequência Nacional de Chamada também foi explicada, passando por curiosidades históricas, como a reserva do algarismo 9 na telefonia de emergência contra discagem acidental, até a nossa cultural associação com a série 19x da polícia, dos bombeiros, do SAMU e da Defesa Civil.
Por fim, foram bem justificadas as bases do Protocolo de Áreas Remotas, uma adaptação do Wilderness VHF FM Protocol publicado em 1994 por William H. Alsup, montanhista, juiz distrital e radioamador norte-americano.
Importante: Alsup concebeu o protocolo para o Serviço de Radioamador. Nós, por outro lado, o adaptamos também para a Radiocomunicação de Uso Geral — Canal 9 — modalidade esta que dispensa autorização, habilitação ou licença de estação para transmissão.
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| Fair Use - veja bibliografia para acessar a matéria completa |
"[...] nenhum protocolo fará bem algum a menos que seja adotado na prática [...] e que tal padronização seria [...] um passo significativo no avanço de uma das principais responsabilidades do Radioamadorismo: comunicações de emergência e segurança" (ALSUP, 1994, p. 99, tradução nossa).
Nosso projeto é trabalho voluntário que não dorme e está pronto para esclarecer as dúvidas dos usuários quando e onde existirem.
Utilize o rádio da forma correta para aumentar as chances de atender e ser atendido!
Para saber mais, entre em contato!
Obrigado e até a próxima reunião.
Marcio Grassi Salvatti
Marcio Grassi Salvatti
Bibliografia:
ALSUP, William. A Wilderness VHF FM Protocol. QST, Newington, v. 78, n. 2, p. 99, fev. 1994.
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Imagens ilustrativas: Gemini 3 Pro
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